quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O Livro da Solidão

Os senhores todos conhecem a pergunta famosa universalmente repetida: "Que livro escolheria para levar consigo, se tivesse de partir para uma ilha deserta...?"
Vêm os que acreditam em exemplos célebres e dizem naturalmente: "Uma história de Napoleão." Mas uma ilha deserta nem sempre é um exílio... Pode ser um passatempo...
Os que nunca tiveram tempo para fazer leituras grandes, pensam em obras de muitos volumes. É certo que numa ilha deserta é preciso encher o tempo... E lembram-se das Vidas de Plutarco, dos Ensaios de Montaigne, ou, se são mais cientistas que filósofos, da obra completa de Pasteur. Se são uma boa mescla de vida e sonho, pensam em toda a produção de Goethe, de Dostoievski, de Ibsen. Ou na Bíblia. Ou nas Mil e uma noites.
Pois eu creio que todos esses livros, embora esplêndidos, acabariam fatigando; e, se Deus me concedesse a mercê de morar numa ilha deserta (deserta, mas com relativo conforto, está claro — poltronas, chá, luz elétrica, ar condicionado) o que levava comigo era um Dicionário. Dicionário de qualquer língua, até com algumas folhas soltas; mas um Dicionário.
Não sei se muita gente haverá reparado nisso — mas o Dicionário é um dos livros mais poéticos, se não mesmo o mais poético dos livros. O Dicionário tem dentro de si o Universo completo.
Logo que uma noção humana toma forma de palavra — que é o que dá existência ás noções — vai habitar o Dicionário. As noções velhas vão ficando, com seus sestros de gente antiga, suas rugas, seus vestidos fora de moda; as noções novas vão chegando, com suas petulâncias, seus arrebiques, às vezes, sua rusticidade, sua grosseria. E tudo se vai arrumando direitinho, não pela ordem de chegada, como os candidatos a lugares nos ônibus, mas pela ordem alfabética, como nas listas de pessoas importantes, quando não se quer magoar ninguém...
O Dicionário é o mais democrático dos livros. Muito recomendável, portanto, na atualidade. Ali, o que governa é a disciplina das letras. Barão vem antes de conde, conde antes de duque, duque antes de rei. Sem falar que antes do rei também está o presidente.
O Dicionário responde a todas as curiosidades, e tem caminhos para todas as filosofias. Vemos as famílias de palavras, longas, acomodadas na sua semelhança, — e de repente os vizinhos tão diversos! Nem sempre elegantes, nem sempre decentes, — mas obedecendo á lei das letras, cabalística como a dos números...
O Dicionário explica a alma dos vocábulos: a sua hereditariedade e as suas mutações.
E as surpresas de palavras que nunca se tinham visto nem ouvido! Raridades, horrores, maravilhas...
Tudo isto num dicionário barato — porque os outros têm exemplos, frases que se podem decorar, para empregar nos artigos ou nas conversas eruditas, e assombrar os ouvintes e os leitores...
A minha pena é que não ensinem as crianças a amar o Dicionário. Ele contém todos os gêneros literários, pois cada palavra tem seu halo e seu destino — umas vão para aventuras, outras para viagens, outras para novelas, outras para poesia, umas para a história, outras para o teatro.
E como o bom uso das palavras e o bom uso do pensamento são uma coisa só e a mesma coisa, conhecer o sentido de cada uma é conduzir-se entre claridades, é construir mundos tendo como laboratório o Dicionário, onde jazem, catalogados, todos os necessários elementos.
Eu levaria o Dicionário para a ilha deserta. O tempo passaria docemente, enquanto eu passeasse por entre nomes conhecidos e desconhecidos, nomes, sementes e pensamentos e sementes das flores de retórica.
Poderia louvar melhor os amigos, e melhor perdoar os inimigos, porque o mecanismo da minha linguagem estaria mais ajustado nas suas molas complicadíssimas. E sobretudo, sabendo que germes pode conter uma palavra, cultivaria o silêncio, privilégio dos deuses, e ventura suprema dos homens.

Cecília Meireles

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O açougueiro

Era dia de faxina na casa de Zulmira quando o toque insistente do telefone a fez descer do alto da escada onde limpava uma prateleira.
— Desculpe-me a ousadia... — foi o que logo ouviu de uma voz galante. — Há tempos venho ensaiando para te ligar...
O coração começa a bater descompassado. Quem diria? Alguém a notara por aí! E pensar que o marido nem chegou a perceber que pintara o cabelo de vermelho...
— Eu quero marcar um encontro com você...
Ao ouvir a proposta, Zulmira enrubesceu. O coração parecia querer pular fora de seu peito. E agora? O que dizer?
— E então? — insistiu a voz.
— Eu... eu... não posso... — gaguejou. Quem seria este homem? Aquele vizinho novo que vivia às voltas com um poodle? Não! Ele parecia ter um jeito meio afetado. Deus meu!, seria o Odorico? O açougueiro? Bem que percebera que ultimamente ele sempre lhe escolhia a melhor peça...
— Eu sei que você é uma mulher casada... eu entendo... mas é apenas um encontro...
— Não, eu não posso! — repetiu com firmeza. Afinal de contas tinha lá os seus princípios, e ainda por cima dois filhos adolescentes. E se fosse mesmo o Odorico? Ah! O Odorico sim valia a pena. Um homem que mexia com a carne daquele jeito, o que é que não faria com uma mulher?
— Ninguém ficará sabendo... eu prometo! — continuou ele, persuasivo. – E tenho certeza que será uma noite inesquecível... Começaremos com um jantar à beira-mar... Depois iremos navegar durante a madrugada...
Zulmira deixava-se levar pela imaginação quando foi surpreendida por uma pergunta:
— Você gosta de ostras?
— Ostras? — repetiu, sem saber o que responder. Nunca comera ostras em toda sua vida, mas lera numa revista da cabeleireira que ostras eram afrodisíacas.
— Se você não gosta eu...
— Não! Imagine... gosto sim! — exclamou.
— Eu posso esperá-la amanhã à noite? — perguntou–lhe o homem. — Estou bastante ansioso para encontrá-la.
E agora? Deixaria a vida passar sem lutar por algumas boas lembranças? Este pensamento fora suficiente para convencê-la.
— Sim! — respondeu decidida. — Onde podemos nos encontrar?
— Faz o seguinte Telma: às 8:30 você me liga...
— Ei! Peraí! Meu nome não é Telma!
— Não?!! — exclamou o homem, aturdido.
— Não! — confirmou Zulmira, com a voz zangada.
— Mil perdões! — disse ele e desligou envergonhado num baque rápido.
E sem mais nada por esperar daquela tarde, Zulmira continuou a espanar a prateleira, pensando, de quando em quando, num longo suspiro, que a vida é assim mesmo

Adriana Costalunga

A rainha em seu trono

Mamãe Dora abriu os olhos, atenta. Sentada na velha cadeira de braço, ocupava o centro do salão, onde, naquela tarde, empregados mudavam os móveis e levavam pequenos objetos, vasos, cinzeiros, enfeites, de um lado para outro. Não os conhecia; não eram seus criados, talvez trabalhassem para seu filho Hugo, homem poderoso, rico, e, portanto, cheio de empregados à sua disposição.

Mas aquele era o seu salão. Onde passara bons momentos em sua vida. O que faziam aqueles homens ali? E mais: o que queriam, tirando as coisas de lugar, levando embora os móveis, deixando aquele vazio frio e cheio de ecos? Um absurdo! O que pensavam que ela era, algum traste sem valor?

Encheu o peito, pronta para acabar com aquela falta de respeito. Tentou falar, mas a voz não saiu. Insistiu, sem sucesso. Ao fundo do salão, surgiu Clara, sua filha mais nova, linda; aproximou-se dela, mais e mais, seu corpo e seu rosto, as mãos estendidas num carinho, ocupando toda a visão de Mamãe Dora, que sentiu lágrimas lhe queimarem os olhos.

Clara pegou a foto sobre o chão e contemplou o retrato da mãe, sentada na velha cadeira de braços. Sentiu saudades. Aquele salão jamais seria o mesmo sem Mamãe Dora.

Alexandre Gazineo

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

A fofocaria

Conversando com um amigo, lá de Limoeiro, sobre o interesse na abertura de um novo segmento de negócios na cidade, sugeriu-me um que acreditava ser bastante promissor e original: uma fofocaria!
Nunca havia pensado nisso... Abrir uma fofocaria no centro de Fortaleza, talvez fosse mesmo um bom investimento. Digo no centro, mas bem sei que há espaço para rápida expansão de franquias em shoppings, igrejas, clubes, lans e nas academias... de ginástica, obviamente.
Receoso, decidi consultar o Raimundo de Menezes, também cronista, profundo conhecedor da gente e dos costumes da cidade, para saber o que ele achava do empreendimento. Ele, arranhando o rosto redondo com certa ansiedade, disse-me que a fofoca era uma das coisas que o tempo não levou, e que se eu quisesse consultar um profissional gabaritado a respeito, me indicaria o João da Silva Tavares, segundo ele, o primeiro mexeriqueiro de Fortaleza! Fiquei impressionado: este senhor, de tão longevo, deveria ser um hors-concours da fofoca.
Até então, eu sabia que o primeiro fofoqueiro do mundo havia sido o Adão, que, aliás, era cearense, e que tinha se arribado para as bandas do Paraíso em busca de fazer dinheiro, porque todos sabem que aqui no Ceará, não tem disso não, não tem disso não...
Tavares era mestre em Gramática Latina (um letrado, felizmente) e era temido por quem tivesse rabo de palha. Conforme o Raimundo contou, se a pessoa lhe caísse em desagrado, mesmo que esta não tivesse defeitos, ele os inventava, e o fazia com tal excelência que, rapidamente, a intriga era distribuída em forma de picuinhas e difamações. O seu exercício inventivo e belicoso de “mexeriqueiro, enredador e perturbador público” era até reconhecido oficialmente pela Câmara de Vereadores, vítima-mor da língua espinhenta, embora, por vezes, é claro, com muita justiça...
O mexeriqueiro nos recebeu todo orgulhoso. Veio logo distribuindo algumas crias novas e, interessado no negócio, passou-me algumas dicas que eu tratei de tomar nota com atenção:

— Óquei, óquei, Raymundo, você está certo, existe mesmo uma grande oferta e procura de nosso produto. A fofoca, nesse mundo globalizado, tem uma velocidade de propagação imensa e, para se potencializar esse efeito, é fácil, basta apenas anunciar ao intrigante: “Só falei porque é para você, mas é segredo”. É batata! Pode contar que já, já, sua fofoca volta até você.

Disse-nos mais: que o verdadeiro artesão da fofoca era tão desprendido que, além de não assinar a obra, não confessava sua autoria nem sob tortura! Era sempre assim: me disseram, me falaram, alguém contou... Estava ele até chateado com o injusto estigma que sua profissão lhe conferia. Acreditava ser mais apropriado, ao invés de fofoca, falar-se em “comunicação social”.
Sobre o imóvel da fofocaria, insistia que as suas paredes tinham que — para facilitar o insight visual — ser de vidro; mas o telhado, ao contrário, nunca!
Aconselhou-me montar o negócio diante de uma praça, para facilitar o fluxo de profissionais, e que poderíamos, inclusive, vender uns cafezinhos, pãezinhos, doces, coisas leves como numa casa de merenda, pois o bom ficcionista (assim ele também se denominava) não pode perder muito tempo mastigando, bem sabido que seu instrumento de trabalho é a boca.

— Mas não podemos querer que todos venham à fofocaria. Pelo menos, não ao mesmo tempo, pois se todos estiverem lá, não teremos de quem falar, não é verdade? O ausente é também um grande colaborador em nosso negócio!

Sugeriu a criação de um menu de fofocas onde as pessoas escolheriam e encomendariam a produção. Dentre os tipos de fofoca, teríamos a fofoca-alcunha, um produto mais caro, pois além da fofoca em si, a vítima também ganharia um apelido que o perseguiria pelo resto da vida.
Eu já estava entusiasmado com tantas idéias quando, de repente, percebi sua face transformar-se: acima do olhar meio de banda, a testa franzida, enquanto cofiava a barba mal-feita. Passou a perguntar-me o que eu fazia, onde morava, meu estado civil... Nem sei por que, mas senti um frio na espinha e a orelha a esquentar. Olhei para o Raimundo que, com os ombros encolhidos e os cabelos em pé por sobre o rosto corado, pôs-se a assobiar. Respondi ao curioso:

— Sinto muito, Tavares, mas a editora do jornal me disse que o texto da crônica não poderia mais passar de cinqüenta linhas... Infelizmente, acabou... Uuuufa!

Raymundo Netto

A Culpa é de Maria Adelaide

A feiúra é genética, passa de pai para filho. E, assim como a beleza que colore e encanta, o ato de ser feio faz nascer sentimentos como a compaixão e, às vezes, até mesmo a ternura abre os braços e enche de candura os lábios e o corpo do feio. A atração quando isto acontece é inevitável, pois a beleza não tem mesmo um quê de fundamental. Ela é como um adorno e, diante de cada par de olhos, se diferencia e muda de foco e sentido.
Falei tudo isto para começar a narrar a vida cheia de princípios e fantasias de Maria Adelaide,uma costureira do subúrbio carioca. Mulher jeitosa,habilidosa que sabia transformar o feio no belo. Trapos em lindas colchas de fuxico.
O tempo gasta e desgasta até mesmo o que o homem acredita ser imortal e Maria Adelaide envelheceu aos olhos da vida. Tudo é mesmo fungível, somente as palavras não são consumidas pelo determinado palpitar das horas. As rugas permearam seus olhos e rosto de uma beleza indizível, incomum e extraordinária. Seus lábios se contraíam de uma maneira especial quando sorria, como confeites e serpentinas nas noites animadas e coloridas de carnaval.
Maria Adelaide casou com Roberval, um homem alto, muito magro e dono de um sorriso largo e sensual. Quer dizer, a sensualidade fica por conta do olhar apaixonado da sonhadora e romântica esposa que invadia as gargalhadas do companheiro com gestos de afago e carinho. Uma intimidade que repousava no silêncio da alcova quando iam dormir tendo apenas, como testemunhas, a luz das estrelas e um pequeno e frágil candeeiro. A vida na roça era simples, mas recheada de poesia e devaneios.
Roberval gostava de repousar o cansaço da lavoura nos seios fartos de Maria Adelaide, mas como o tempo pode dar um ponto final a tudo, até na mais arrebatora paixão que não era o caso do casal, o casamento um dia acabou. Roberval disse que ia comprar um saco de milho e nunca mais voltou. No rosto de Maria Adelaide uma lágrima se cristalizou e ali nasceu um lindo sinal como se fosse de nascença. Um charme que a tornou ainda mais bela. Sua beleza foi sendo conquistada dia-a-dia como tudo na vida, inclusive os mais valiosos e preciosos tesouros.
Os filhos cresceram, as costuras diminuíram devido à vista cansada e Maria Adelaide passou a sorrir e a ver na vida, no nascer de cada dia, a admirável oportunidade de poder renascer diariamente. Encher o sorriso de dentes e ternura e retribuir, ao mundo, as ocasiões favoráveis para crescer de dentro para fora, como uma rosa que floresce sem ninguém dizer uma só palavra para despertá-la de seu encantamento natural. Assim era Maria Adelaide, uma mulher que descobriu que ser bela nada tem a ver com traços perfeitos, assim como suas colchas de retalhos contorcidos e irregulares que se transformavam, com o ofício de costureira, em belas obras de arte.
Os filhos, Pedro e Joana, herdaram da mãe uma feiúra peculiar, mas aprenderam detalhes importantes que fazem a diferença na arte que o homem um dia denominou de vida...A obstinação, o espírito de sacrifício, de tornar sagrado até mesmo o que parece torpe, vil e repelente. È superando obstáculos físicos e, muitas vezes, imaginários que o homem consegue deixar uma marca registrada na sua passagem pela vida, porque as feridas só serão curadas pelos que forem capazes de enxergar a beleza no feio, a felicidade nos olhos da tristeza...E o amor entre a despedida da lua e das estrelas do céu, no encontro quase casual com o sol que presenteia os seres humanos com a ocasião favorável para eles fazerem despertar o que têm de melhor dentro de si, dos corações...Como canções que ficarão para sempre entretendo os espíritos com a mais doce harmonia...

Fabiana Barros